Empregos só serão preservados se o Brasil parar de registrar recordes de mortes

País precisa de um horizonte para o colapso na Saúde para contar com uma saída para a crise na economia; falta coordenação até para a compra de medicamentos para quem consegue internação

A ideia de um Comitê para discutir as medidas de combate à pandemia foi bem recebida. Há mais de um ano se espera um coordenação nacional, que deixe de lado questões políticas e consiga estabelecer uma coordenação nacional. Isso se faz mais necessário ainda agora, que o país está mergulhado no caos. Só que, na prática, desde o primeiro dia, mesmo com a participação de um novo ministro da Saúde, o médico Queiroga, que quer transformar o Brasil em um país de máscaras, já se percebeu a dificuldade de qualquer avanço, pelo menos na busca do tal entendimento. Na reunião de estreia, só governadores aliados. Na sequência, velhas recomendações do presidente para o tratamento precoce.

Embaralhando ainda mais a crise, se agravaram os embates entre o Congresso e o ministro das Relações Exteriores que deveria, no mínimo, avançar nos contatos diplomáticos com países como China e Estados Unidos, com os quais o Brasil pode garantir maiores facilidades para a aquisição de vacinas. A saída de Ernesto Araújo pode tirar de cena um grande entrave, mas o Brasil ainda tem muito a recuperar em termos de imagem externa. Até mesmo pela própria postura de Bolsonaro, filhos e outros assessores em várias situações. Além dos impasses iniciais no andamento do Comitê da crise da Covid-19 e na área internacional do governo, reforçando o cenário de desconfiança, ainda teve o adiamento da nova reunião do Comitê, agora já oficializado, marcada para este começo de semana, e a convocação de um dia de jejum e orações contra a pandemia. Nada contra orações. Ao contrário. O problema é o aparente desvio de foco, o populismo, a falta de ações concretas. O Brasil hoje carece de coordenação até para a compra de insumos e medicamentos para os que conseguem internação.

Podemos conseguir mais vacinas. Sim, podemos. Novos registros estão sendo avaliados, assim como contratos de aquisição. A pressão política sobre o presidente aumentou muito e o recado de Arthur Lira, presidente da Câmara, sobre o tal remédio fatal deixou isso bem claro. A aprovação do orçamento, por outro lado, que se transformou numa grande armadilha contábil para a equipe econômica, revelou as armadilhas que a suposta base aliada podem jogar nas mãos do presidente. Bolsonaro tem de desarmar as pedaladas fiscais que não criou. Enfim, o que temos é um balanço de riscos cada vez mais pesado, que impacta o mercado, o dólar, as perspectivas de inflação e juros, num ambiente em que a pandemia, além da questão sanitária, compromete cada vez mais o andamento da economia.

As nossas melhores expectativas hoje são no sentido de uma derrubada dos entraves que têm atrasado a aquisição de vacinas. Importação, produção, não importa a origem, não importa quem vai sair na frente. O país precisa de um horizonte para o colapso que vive na saúde, para poder contar com uma saída para a crise econômica. Não se trata mais de discutir se é preciso preservar vidas ou empregos. Empregos só serão preservados se o país parar de bater recordes de contaminados e mortes, revertendo a curva ascendente que hoje preocupa até os mais céticos quanto à crise inédita que o Brasil enfrenta na Saúde.

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