Vacinação contra a Covid-19: Por que é correto priorizar os mais velhos

Dar preferência a trabalhadores mais jovens com base no risco de transmissão permitiria a ocorrência de ainda mais mortes em troca de benefícios incertos

Na minha primeira coluna, falei de uma lei recém-aprovada que poderia permitir que o setor privado contribua com a vacinação contra a Covid-19 sem “canibalizar” doses que iriam para o SUS nem permitir que grupos não prioritários fossem vacinados antes dos grupos prioritários do Programa Nacional de Imunização (PNI), revertendo parte das doses compradas ao SUS. Desde então, surgiu uma proposta para alterar a lei, removendo a contrapartida para o sistema de saúde e permitindo que as empresas compradoras imunizem seus funcionários, aparentemente deixando de lado as prioridades do PNI. Então vale a pena relembrar por que as prioridades são como são. O mundo inteiro decidiu distribuir a vacina de forma a proteger os profissionais de saúde, ou da linha de frente, essenciais para a continuação do combate à pandemia, e minimizar as mortes ou seja, quem corre o maior risco de morrer se for infectado, tem prioridade. Cada lugar traduz este princípio de forma um pouco diferente, mas, de modo geral, o resultado é que grupos de risco têm prioridade, e o principal grupo de risco é o dos mais velhos. Isso porque a idade é o fator que mais prevê sintomas severos de Covid e morte.

Seria possível uma priorização alternativa por exemplo, priorizar certos setores da economia ou aqueles que, se infectados, teriam mais chance de transmitir o vírus. Mas o que se sabe até hoje a respeito das vacinas autorizadas é que elas previnem sintomas severos e morte com mais efetividade do que elas previnem infecções. Não há dados conclusivos quanto aos efeitos da vacina na transmissão do vírus. Portanto, dar preferência a trabalhadores mais jovens, ou outros grupos, com base no risco de transmissão, permitiria a ocorrência de ainda mais mortes (impensável dados os números que estamos vendo a cada dia) em troca de benefícios incertos. E deixar de prevenir o maior número possível de casos de sintomas severos levaria a uma sobrecarga ainda maior do sistema de saúde e impactos ainda mais profundos no acesso ao atendimento à saúde de toda a população.

Se continuar de pé a liminar que dispensa o setor privado de doar doses ao SUS, permitindo que empresas vacinem seus funcionários não-prioritários antes que se complete a vacinação dos grupos prioritários, estaremos nos desviando deste princípio que salva mais vidas e ajuda a todos. E o substituiremos por um critério arbitrário: tem prioridade quem trabalha para um empregador que comprou vacinas, independentemente do risco de infecção, de sintomas severos e de morte.

Para acelerar a vacinação no Brasil, é possível, sim, que o setor privado tenha seu papel, mas esse papel não pode se sobrepor às prioridades do PNI. Nos EUA, por exemplo, farmácias varejistas estão envolvidas no programa de vacinação como distribuidoras: recebem imunizantes comprados pelo governo e os administram. Mas sempre seguindo o calendário de grupos prioritários estabelecido por cada estado, e, note-se, sem o poder de comprar as próprias vacinas ou comercializá-las. A situação do Brasil, especialmente o número gravemente insuficiente de vacinas que temos até agora, pode justificar compras pelo setor privado, contanto que não haja “canibalização”algo bastante difícil de organizar agora, mas que deve se tornar mais viável conforme a produção e oferta de vacinas cresce. E contanto que continuemos a alocar as vacinas de modo a salvar o maior número possível de vidas.

Deixe um comentario