Bolsonaro conversa com empresários para evitar uma debandada para o Centrão

Atento ao movimento dos partidos de centro para 2022, presidente age rápido e tenta convencer setor empresarial de que o governo é liberal e tem uma agenda de reformas

O poder está em disputa. A indicação de que o segundo turno das eleições de 2022 será entre o presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva assustou centristas e provocou reações. A expectativa do Centrão era a de emplacar um candidato de oposição a Bolsonaro, mas que fosse contra o PT e Lula. Os cálculos deram errado e, depois da liberação da candidatura do ex-presidente (e dos sinais claros de que ele apareceu na frente do atual presidente pela primeira vez nas pesquisas), reforçaram a tese de união do centro. São os políticos tradicionais que estão em crise de abstinência. Há muito tempo longe do poder e vendo que este período chamado na política de planície vai demorar muito, eles decidiram se mexer. 

A estratégia é formar um grupo forte em que todos retiram as candidaturas e fazem um discurso comum contra o presidente Jair Bolsonaro e sua gestão no primeiro momento. Depois, o candidato que estiver melhor nas pesquisas assume a frente da articulação. A primeira exigência é que todos retirem as candidaturas. O PSB, com tendência a apoiar o PT, se dividiu e solicitou o mesmo na esquerda: que todas as candidaturas sejam retiradas. O que o partido quer mesmo é o lugar de vice. O momento é tão tenso que o candidato Ciro Gomes pode ficar sem legenda. O PDT está discutindo internamente o abandono da candidatura para embarcar de vez no projeto Lula 2022. Também sonha com o lugar de vice, mas sem Ciro Gomes. Desta vez a traição a Ciro não seria do PT, mas da própria legenda. Daí a ideia cirista de sugerir que Lula dê um passo para trás, como fez na Argentina Cristina Kirchner. Mesmo com boas chances de vitória, ela aceitou ser vice de Alberto Fernández. 

Voltando ao grupo de centro, os candidatos João Doria, Eduardo Leite, Luciano Huck, Sergio Moro e o próprio Ciro se espremem para manter a possibilidade de sobrevivência. O desafio é grande. Entendem os representantes deste setor que é mais fácil empurrar para fora do segundo turno em 2022 o presidente Jair Bolsonaro do que o ex-presidente Lula. Esta é a previsão e o cenário traçado pelos ideólogos destes partidos, que perderam o poder e não aceitam esta situação. A novidade neste processo é que setores empresariais que deram sustentação à eleição do presidente Jair Bolsonaro fazem parte desta aposta.

Houve reuniões entre os representantes destes setores liberais com os presidentes da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, e do Senado, Rodrigo Pacheco. Muitos entenderam por aqui que o acordo em São Paulo seria “o rascunho do impeachment”, mas não houve apoio no Congresso nem dos partidos de oposição. Os líderes, internamente, acham mais prudente esperar as eleições. O presidente Jair Bolsonaro foi alertado do movimento e toma precauções. A viagem a São Paulo para conversas com representantes empresariais foi cuidadosamente agendada para acabar com dúvidas sobre o programa liberal do governo e decisão por privatizar e fazer reformas. Os empresários querem as reformas tributária e administrativa, com urgência. O setor ouviu relatos de líderes no Congresso de que as dificuldades em apressar as mudanças estruturais estão no governo. Bolsonaro mostra que a política dele preza por reformas, mas encontra resistências em grupos importantes nos Estados e nas organizações dentro do próprio serviço público

A conclusão é de que o processo político está em andamento e que o quadro para 2022 está em aberto. A corrida  nem começou por falta de definição dos competidores. Só que é preciso muito cuidado para esta fase do processo. É exatamente deste início que se define a campanha, adversários e aliados. O presidente Jair Bolsonaro não definiu nem mesmo o partido no qual se filiará para a disputa.  A primeira constatação é de descartar de vez o projeto de criar a própria sigla, a Aliança Pelo Brasil.  Houve momentos em que o presidente pensou no PMB, o Partido da Mulher Brasileira. Depois se direcionou para o Patriota, mas está sendo convencido de que o melhor é voltar “ao velho ninho”, o PSL. Os argumentos são de que o partido tem estrutura para acionar Estados, bancada para garantir horário de propaganda eleitoral em rádio e TV e ainda recursos lícitos para campanha eleitoral. O presidente terá que ressarcir os cofres públicos por deslocamentos feitos para campanha no avião presidencial, além de gastos com segurança e organização. Falta a pacificação total do PSL, que pode crescer recebendo deputados e senadores de partidos que não estão na base de apoio. As cartas estão sendo colocadas na mesa e o jogo, por enquanto, está na organização a espera dos parceiros. 

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