Com mais pacientes do que leitos de UTIs, médico explica critérios para escolher quem tem prioridade

Presidente da Associação Médica Brasileira afirmou que protocolos para escolher quem terá direito aos leitos de UTI em momento de escassez se basearão em ‘aritmética’

O presidente da Associação Médica Brasileira, César Fernandes, conversou com apresentadores do “Jornal da Manhã”, da Jovem Pan, neste sábado, 10, sobre os critérios para triagem de pacientes em Unidades de Tratamento Intensivo no país com a iminência do colapso na saúde por causa da pandemia do novo coronavírus. “O que ocorre é que nós temos um esgotamento, um colapso do nosso sistema hospitalar, particularmente nos leitos de UTI. Ou seja, em outras palavras, nós temos mais pacientes para ocupar esses leitos do que leitos disponíveis. Essa espera tem aumentado muito e os números têm sido assustadores”, afirmou. Segundo ele, os profissionais procuram de maneira científica e ética determinar quais pacientes são prioridade, evitando, assim, que alguém “fure a fila” da UTI.

“É importante que se tenha clareza nesse processo, que ele possa ser auditável, que possa ter bons fundamentos para que tenha mecanismos objetivos, métricos, pontuais para que essa escolha seja feita”, detalhou. Ele explicou que esses critérios, até então inéditos no Brasil, poderão ser utilizados no futuro em caso de grandes tragédias, como desabamentos ou tsunamis no mundo. Segundo o especialista, a AMB se juntou a outros órgãos, como a Sociedade de Terapia Intensiva, de Emergência e de Cuidados Paliativos para emitir um documento que informa a população sobre as ferramentas utilizadas para decidir quem ocupa um leito vago. Entre os critérios práticos, chamados pelos médicos de “ferramentas”, estão a avaliação das condições de funcionalidade orgânica do indivíduo, como a função cardíaca, dos pulmões, do fígado e dos rins, que podem estar normais ou sinalizando proximidade da falência. “Com essas variáveis eu pontuo e dou uma nota. Essa nota é objetiva. A mesma coisa diz respeito à capacidade individual de realizar funções. Existem indivíduos que estão nas suas plenas funções, estão aptos a realizar as funções do cotidiano, e têm indivíduos que têm tamanho comprometimento que não têm a menor possibilidade de realização de qualquer atividade”, explicou, classificando a situação atual do Brasil como de “esgotamento” de saúde.

Comorbidades também são analisadas pelos médicos e, de “maneira aritmética”, determinam uma nota ao indivíduo e dizem quem tem a maior possibilidade de sobrevida. Segundo o médico, a idade não é um fator de exclusão e, em caso de dúvidas, uma comissão formada por dois médicos e um profissional não-médico da área de saúde especializados em terapia intensiva farão uma arbitragem em casos duvidosos. “Essa ferramenta é uma ferramenta que não foi criada agora pela Associação Médica Brasileira. É uma ferramenta que já existe algum tempo e é de valioso auxílio nessas condições”, afirmou. Os critérios são aplicados para situações de crise como a atual. “Para tirar qualquer subjetivismo dessa análise. O nosso país é um país que se caracteriza pelo ‘fura-fila’. Tivemos fura-fila de vacina, lá no início da pandemia havia dificuldades nos diagnósticos, então nós tínhamos fura-fila do kit [de testagem], fura-fila da vacina… Mas do ponto de vista médico isso é insustentável”, afirmou. O médico deu exemplo da fila dos transplantes no país como uma fila da saúde que é respeitada com todos os cidadãos tratados de maneira igualitária.

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