Enquanto esperam por um golpe de cima, golpeiam a democracia diariamente por baixo

Pessoas são arrastadas, espancadas, presas em praias, parques, ruas, no trabalho, pelo direito abusivamente constitucional de ir e vir e trabalhar

A imprensa, políticos, intelectuais, artistas e a esquerda vivem à espera do golpe. Desde a eleição daquele a quem chamam de ditador, nazista, fascista, racista e agora genocida, esperam esperançosamente por um ato ditatorial, brutal, assassino. Até agora nada. Mas o que é a realidade diante da utopia da mudança de um mal que não se concretiza na cabeça do ideopata? Mudanças no ministério? Golpe à vista. Mudanças na polícia? Golpe à vista. Críticas à imprensa que o chama de assassino e que deseja sua morte? Golpe à vista. Tentativa de libertação do trabalhador do lockdown que não salvou vidas? Golpe do genocida que insiste em enxergar os milhões de miseráveis formados pelo trancamento da liberdade de trabalhar e não vê os mortos que não foram salvos pelo isolacionismo imposto.

A realidade da utopia cega que espera pelo golpe que não veio passa pano nos golpes sucessivos que golpeiam a visão ideopata. Juízes do Supremo promovem prisões arbitrárias, sem julgamento. Trancam jornalistas, censuram revistas, bloqueiam contas em redes sociais, calam vozes, prendem deputados, influenciadores, cidadãos. Nenhum golpe à vista quando os injustiçados e perseguidos são simpatizantes do futuro provável golpista, claro. Liberdade contra o golpe só para aqueles que estão do lado certo. Pessoas nas ruas arrastadas, espancadas, presas em praias, parques, ruas, no trabalho, pelo direito abusivamente constitucional de ir e vir e trabalhar. Estes dois direitos constitucionais plenos golpeados a olhos vistos pela polícia a mando e soldo dos tiranetes da saúde pública que querem salvar vidas por medidas testadas — e não comprovadas — de salvação. “É para sua segurança”, dizem. Para nossa segurança, nos prendem. Nos calam. Nos massacram. Nenhum golpe à vista.

Foi preciso, aliás, um policial em desespero dizer que não queria massacrar direitos inalienáveis de trabalhadores, ser morto por seus companheiros, para que uns poucos acordassem do transe da expectativa do golpe (poucos, muito poucos). Um policial em surto desesperado teve um discurso mais sensato que os comedidos jornalistas e intelectuais e juízes que continuamente cerceiam poderes e massacram e assassinam diretos do cidadão livre em nome do golpe que ainda não veio. Que pedem e exercem golpes concretos a reboque da esperança do golpe odioso do presidente detestavelmente eleito democraticamente – que insiste em não dar o golpe que almejam. O golpe preventivo ao golpista genocida em espera é para salvar vidas, dizem. Enquanto isto, em Curitiba, um prefeito, além de proibir pessoas de trabalharem e saírem de casa, quer também proibir e multar pessoas por distribuírem comida para mendigos. Tudo em nome, claro, do isolacionismo que seria pra salvar vidas não salvas. Nenhum golpe à vista para o gestor que tranca a liberdade de compaixão e misericórdia e que proíbe a possibilidade de dar de comer a quem tem fome “fiquem em casa”, mandam os tiranetes aos que tem casa. “Morram de fome nas ruas”, parecem dizer a quem não tem lar e passa fome nas esquinas. Até aqui, nenhum golpe à vista.

Afinal, o Estado sabe a melhor maneira de te salvar, certo? Golpeando a sua inteligência, o golpista populista que espera pelo golpe do presidente prende todo mundo, tranca emprego, aumenta miséria e depois distribui cestas básicas e esmolas para os pobres que seu próprio governo criou. E aí o gestor isolacionista recebe agradecimentos e votos dos miseráveis que criou. Só ele, o Estado, pode exercer sua misericórdia. Você, cidadão livre, fique em casa. Belíssimo golpe. Real. Despercebido por aqueles que esperam o golpe de cima. A misericórdia individualizada, o trabalho individualizado são as mais justas formas de liberdade – liberdade de exercício de misericórdia e trabalho para além do poder do estado – que prejudicam o poder do governante populista e sutilmente golpista de cooptar votos. Sobretudo cooptar votos explorando a miséria que o próprio gestor criou. Este é o golpe. Real. Despercebido por aqueles que – sempre – esperam o golpe de cima – enquanto golpeiam tua consciência. Ou tentam.

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