Insegurança alimentar grave revela um Brasil desconhecido por muitos e ignorado por outros

Segundo pesquisa da Rede Penssam, pela primeira vez nos últimos 17 anos, mais da metade da população vive sem a certeza de que terá comida na mesa

O coração do Brasil, aquele verdadeiro, está na periferia das grandes cidades do país. Aquele país desconhecido da maioria das pessoas, ferido em quase tudo, sem direito a nada. Aquele país que fica observando o que ainda lhe é possível. Atualmente, 117 milhões de pessoas vivem a insegurança alimentar. Conseguem almoçar hoje, mas não sabem se haverá comida amanhã. E assim esse país dos mocambos vai seguindo. Faz parte apenas das discussões acadêmicas e políticas que nunca chegam a lugar nenhum. É assustadora a pesquisa divulgada na segunda-feira, 5, pela Rede Brasileira em Pesquisa e Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssam). Pela primeira vez, nos últimos 17 anos, mais da metade da população vive assim, sem a certeza de que terá comida na mesa. São pessoas que, quando dispõem de algum alimento, comem pouco pensando no dia seguinte. Em 2020, a pandemia levou à miséria 19 milhões de pessoas. Equivalem a 9% da população brasileira. O analista de Políticas e Programas da ActionAid Brasil, que participou da pesquisa, Francisco Menezes, observa que o estudo revela um processo de intensa aceleração da fome no Brasil, com um crescimento de 27,6% ao ano, entre 2018 e 2020. O aumento pode ser medido neste dado. De 2013 a 2018, o crescimento era de 8% ao ano. Chegamos em 2020 com insegurança alimentar grave. Muito grave.

Os estudiosos da fome no Brasil asseguram que, no primeiro trimestre de 2021, a situação piorou muito. É o que afirma o coordenador da Rede Penssam, Renato Maluf, lembrando que no último trimestre do ano passado, o governo ainda pagava o auxílio emergencial de R$ 300, benefício que foi cortado no início de 2021 e só voltou na terça-feira, 6, num valor bem menor e para menos famílias. Existe fome em 11% das famílias chefiadas por mulheres. Chefiadas por homens, as famílias que passam fome no Brasil são 8%. Os negros e pardos enfrentam insegurança alimentar grave, em 11% dos domicílios, número que cai para 7,5% entre os brancos. Some-se a esses números desoladores o fato de que milhões de brasileiros, sem trabalho e sem auxílio, poderão perder o acesso aos benefícios da Previdência Social, como auxílio-doença, salário-maternidade, auxílio-reclusão e pensão por morte. Esses seguros são perdidos quando se deixa de recolher a contribuição ao INSS por mais de 12 meses. Há, ainda, os trabalhadores informais, que não conseguem fazer esse pagamento mensal. Não há dinheiro. O pouco que se consegue é para comprar os alimentos possíveis, de qualidade inferior.

Correndo junto à tragédia desses números, há a pandemia que se prolonga, levando as vidas de milhares de pessoas que procuram hospitais sem leito, sem UTI, sem medicamentos e até sem profissionais da saúde em número capaz de dar atendimento aos doentes. No final de tudo, essa é a cara do Brasil periférico, aquele da periferia da periferia, onde a pobreza está instalada de maneira angustiante. O país desconhecido por muitos e ignorado por outros, incluindo aí governos desprezíveis que vivem de manobras políticas para assegurar seus nomes na posteridade. Os que passam fome são socorridos pelo próprio povo, não por uma política de governo. A própria população recolhe voluntariamente alimentos para essas pessoas, na busca de doações para os que estão no desamparo. São meros espectadores da vida. Infelizmente, é uma situação que tem muito espaço para piorar com a pandemia que avança e não dá sinais de recuo. Uma legião de pessoas abandonadas à própria sorte. São 117 milhões de pessoas vivendo na insegurança alimentar. Pessoas que não sabem se terão comida para hoje, amanhã, depois. O que se vê é uma fila de desespero. Este é o país do futuro que nunca chega.

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