Não é só o Brasil: restante da América do Sul vê pandemia se agravar e também preocupa o mundo

De acordo com o Imperial College, Uruguai e Argentina apresentaram nesta semana, respectivamente, a terceira e a quarta maiores taxas de transmissão do planeta

Não é novidade para ninguém. No Brasil, os números de óbitos por Covid-19 são assustadores. Números que não caem. Mas o destino poderia ter sido outro se tivéssemos dispensado ao coronavírus maior atenção, aliada a um enfrentamento sério, não debochado. No entanto, isso são águas passadas. Não há como recuperar o tempo perdido com politicagem. O número de mortos é cada vez maior. Nada pode ser recuperado e o tempo não perdoa. O poeta Manuel Bandeira, quando se viu tuberculoso com 22 anos, pensou imediatamente que ia morrer, na época em que a doença era mesmo uma sentença de morte. Diante disso, ele escreveu num sanatório o que se aplica hoje ao Brasil: “Tudo que poderia ter sido e que não foi”. Não foi, nem será, porque a conduta do país diante da doença é a mesma desde o início, o que, antes de tudo, revela desumanidade e grande falta sentimento pelos que já perderam a vida.

Mas o que está acontecendo em toda a América do Sul? Fala-se muito no Brasil, mas o que acontece com os outros países deste pedaço do mundo? Pouco se fala deles em relação à Covid-19. Às vezes, algumas palavras sobre a Argentina, onde a pandemia se agrava cada vez mais. O mesmo ocorre com o Uruguai. Os números dos países sul-americanos atualmente são os piores de todo o planeta. A América do Sul transformou-se no epicentro da doença nas Américas, impulsionado pelas variantes mais contagiosas do coronavírus. Argentinos e uruguaios vivem um aumento de casos sem precedentes, enquanto a Colômbia voltou a realizar restrições mais drásticas para 12 milhões de pessoas. De acordo com informações do Imperial College para 68 países e territórios, o Uruguai e a Argentina apresentaram nesta semana, respectivamente, a terceira e a quarta maiores taxas de transmissão da Terra.

Nesse placar macabro, a Colômbia e o Peru estão entre os dez mais atingidos pela doença. Os casos de Covid-19 na América do Sul aumentaram 77% em um mês, de março para abril, sem contar com o Brasil. Vários países vêm endurecendo as restrições à locomoção das pessoas, fechando fronteiras, impondo quarentenas e toques de recolher. A ordem é não apenas conter as variantes do vírus, mas também evitar a qualquer custo que o colapso dos hospitais brasileiros chegue aos seus territórios. Os diagnósticos diários hoje chegam perto de 45 mil. Há um mês, era de 25 mil. A média móvel de mortes era, há um mês, de 601. Hoje está em 730, crescimento de 21%. O temor é que as novas variantes que se alastram por aqui circulem ainda mais pela região.

A cepa surgida no Brasil é considerada uma das causas principais no aumento de casos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) responsabiliza o país por essa explosão dos números na América do Sul, afirmando textualmente que o Brasil não é um país sério no combate à doença. A variante mais temida é a P.1, que foi a responsável pelo colapso do sistema de saúde de Manaus. Saindo do Brasil, a P.1 já foi encontrada em pelo menos 15 países e territórios das Américas, destacando-se a Bolívia, Venezuela, Chile, Uruguai, El Salvador, Colômbia, Equador, Argentina e Paraguai. Em toda a região, apenas a cidade de Assunção, no Paraguai, mantém as fronteiras abertas para os brasileiros. Ao mesmo tempo em que os números sul-americanos aumentam, a vacinação nos países da região segue vagarosa, criando um clima de grande apreensão e insegurança nas populações.

Como nos grandes centros brasileiros, os países da América do Sul praticamente não dispõem de leitos e UTIs  nos seus hospitais, problema que se agrava também na medicação, cada vez mais difícil. Convém alertar que o Brasil está fora de todos esses números. É um caso à parte para o mundo devido à falta de empenho no combate à doença. A América do Sul, sem contar o Brasil, começa a preocupar o planeta. Com vacinação precária e um isolamento social incapaz, os números de casos e mortes se multiplicam. A diretora-geral da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), Carissa Etiene, afirma que em nenhum lugar do mundo as infecções são tão preocupantes como na América do Sul. Esse é o cenário de uma região doente, que luta pela vida numa verdadeira guerra desigual.

Oscar Niemeyer foi profético ao desenhar aquela enorme mão aberta no Memorial da América Latina, em São Paulo, colocando na palma dessa mão o mapa da América do Sul como uma mancha de sangue. O vírus é muito mais forte e, em diversos países, a infecção significa morte. Como uma armadilha para a qual não há escapatória. E ainda existe gente para quem tudo não passa de uma farsa. São os idiotas da ideologia, até na doença e na cova, em dezenas de corpos, com a singeleza de uma pequena cruz azul com tiras coloridas sobre a terra vermelha. E há ainda uma dura constatação que deve ser considerada: nesses países sul-americanos, as autoridades sanitárias e os governos lutam contra o vírus, não a favor. 

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