Renan Calheiros vai ao Twitter para reclamar de ataques e abre as portas do Congresso para as redes sociais

Força das novas mídias pode evoluir e, no futuro, comandar processos e decisões importantes no Executivo e no Legislativo

Parlamentares lutam contra os moinhos de vento mais modernos, uma entidade por trás da internet. Os robôs existem, mas não dominam as mídias sociais nem são os responsáveis pelas imagens negativas dos políticos. O então presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia, foi alertado por aliados do presidente Jair Bolsonaro  — que depois deixaram o governo  — de que ele estava sendo presa fácil do chamado “gabinete do ódio”. Imediatamente, houve uma reação e uso de dinheiro público para a contratação de profissionais. Foi criado o chamado ironicamente de “gabinete do amor” para se contrapor aos temidos ataques cibernéticos. As críticas continuaram (e continuam) porque, na verdade, as avaliações são em grande parte espontâneas, e não exclusivamente artificiais. Foi uma espécie de vacina, os deputados e senadores que não estavam ainda com um pé neste sistema entraram com força. 

O senador Renan Calheiros está convencido de que toda crítica recebida vem de seres inexistentes que habitam o universo dos computadores. Contratou uma equipe técnica que rastreia os autores. A conclusão é de que pelo menos 20 mil perfis falsos foram identificados. Na verdade, são usuários que estão com mais de um perfil nas mídias sociais, e isso não é ilegal nem desleal. Os robôs existem e têm o seu papel na grande movimentação nas mídias, mas não dominam a alma do povo que analisa e faz, sim, críticas duras e verdadeiras. Calheiros inovou e foi procurar o Twitter, quer um sócio neste combate. 

Depois da confirmação do comando da CPI da Covid-19, Renan Calheiros está sendo criticado insistentemente. “Ataques dos bolsominions”, argumenta o senador, considerado como couro de jacaré (grosso e resistente a pancadas). Há sinais de que a surra foi tanta que ele passou o recibo. Se fossem robôs, seriam simplesmente desconsiderados, mas o movimento interfere nas decisões políticas. O adiamento da instalação da CPI foi considerado um gesto do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, para deixar na chuva o ex-presidente da Casa, ex-líder e ex-ministro da Justiça. Renan balançou, mas não caiu e segue como o provável relator da CPI. O ataque foi tão forte que o senador do MDB fechou as suas mídias sociais e está com o relatório detalhado da origem dos torpedos. 

A realidade se impõe e o que passa pelas redes finalmente chega aos plenários do Congresso. A democracia já foi discutida em praças. A fase representativa está em vigor, mas a força das mídias sociais pode evoluir e, no futuro, comandar processos importantes e decisões nos governos e no Legislativo. Seria um novo momento para o processo político. Ao reclamar e levar para o Congresso empresas de tecnologia e donos dos novos debates públicos, o senador Renan Calheiros pode estar, sem perceber, legalizando a participação política das páginas sociais. Eu sempre achei que essas empresas são os novos veículos de informação, e o faturamento delas mostra que já passaram, e muito, a indústria da comunicação. Como a política nunca ficou longe da comunicação, essa convivência de deputados e senadores com as redes sociais será inevitável. O perigo é a contaminação. Essas novas mídias estão sendo domadas pelos políticos, como aconteceu com os veículos de comunicação? A resposta é óbvia, sim. 

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