Renan garante que não vai perseguir Bolsonaro, mas presidente deve ficar com um pé atrás

Senador, que deve assumir a relatoria da CPI da Covid-19, diz que não quer ser chamado de parcial no futuro e garante que comissão vai dar uma resposta à sociedade

Ele, bem ele. Renan Calheiros (MDB) está sempre vivo aproveitando as oportunidades que surgem para ter poder. Com vários processos nas costas, todos guardados no STF, Renan tem vida tranquila. Sabe que é difícil pegá-lo. O homem tem força. Ou é bem protegido. Ou está blindado. Pois Renan Calheiros está concluindo o discurso que fará nesta terça-feira, 27, ao tomar posse como relator da CPI da Covid-19. O governo treme na base. O presidente Jair Bolsonaro chegou a telefonar para Renan Filho, governador de Alagoas e filho de Renan Calheiros, para fazer um afago. Na verdade, um gesto humilhante. Bolsonaro já cansou de dizer que essa CPI foi criada no Senado somente para prejudicar seu governo. E Renan, do alto de sua fortaleza, diz que não. Não haverá nenhuma perseguição. No entanto, a questão da pandemia e da vacinação serão abordadas a fundo, doa a quer doer.

Atacado de todos os lados pelos apoiadores do governo, Renan não está nem aí. Por iniciativa do Planalto, fez-se de tudo para que ele não assumisse essa função na CPI. Não deu certo. Renan venceu. E diz que o presidente não precisa se preocupar tanto com sua atuação, até porque ele garante que não será em Deltan Dallagnol na vida de Bolsonaro. Renan assegura que Bolsonaro não vai ficar no centro de nenhum powerpoint, como Dallagnol fez com Luiz Inácio da Silva quando comandava a Lava Jato em Curitiba. Renan observa que, no futuro, não quer ser chamado de parcial. Convém lembrar que em 2016, Dallagnol e integrantes da Lava Jato usaram um powerpoint e colocaram Lula no centro, como chefe de uma organização criminosa. Aliás, quase todos os senadores que vão compor a CPI prometem isenção nas investigações, observando que a CPI terá início, meio e fim. Renan, por seu lado, promete uma investigação responsável. Por isso, não tem porque Bolsonaro ficar preocupado, dizendo que os fatos da Covid-19 serão apurados sem predizer quem cometeu e quem não cometeu erro durante a pandemia.

No entanto, Renan Calheiros, orgulhoso de si, garante que a CPI dará uma resposta à sociedade. Muitas perguntas terão de ser respondidas. Por exemplo: Por que faltou oxigênio na crise de Manaus e por que o Brasil não fez acordos e consórcios para comprar vacinas? E a pergunta mais contundente: Por que a Pfizer não assinou contrato com o Brasil? Renan Calheiros já classificou as mortes por Covid-19 no Brasil como “morticínio” e não esconde que continua a pensar assim. Afirma que todos aqueles que se omitiram no combate à doença serão responsabilizados, seja quem for. Renan acentua bem: “Seja quem for!” O senador Randolfe Rodrigues, que deverá ser o vice-presidente da CPI, adianta que tem exatamente 18 alvos. Diz que essa foi a maneira que encontrou para conhecer os verdadeiros responsáveis pelo genocídio no Brasil durante a pandemia. Randolfe quer que a CPI investigue a produção e distribuição de cloroquina no Brasil para o chamado tratamento precoce da Covid-19, passando pelo atraso na compra de vacinas e agora a falta de medicamentos para intubação.

Seja como for, os holofotes estão com Renan Calheiros, após mais de dois anos de afundar na escuridão ao ser derrotado na eleição para a presidência do Senado. Cercado de processos, ele terá agora a incumbência de apontar os responsáveis pelos erros do governo federal cometidos na pandemia. Lá no fundo, Renan guarda uma mágoa de Bolsonaro, surgida quando os senadores bolsonaristas articularam uma campanha contra ele na disputa com Davi Alcolumbre (DEM) pela presidência do Senado. E mais uma coisa bastante interessante. Interessantíssima: conforme noticiou a Jovem Pan na sexta-feira, 23, Renan Calheiros se declara impedido de relatar e votar matérias da pandemia que envolvam Alagoas, que tem seu filho como governador. Esse detalhe é sério. E grave também. Se não vai relatar fatos de Alagoas, que o Senado arrume outro relator. Então fica assim. A política brasileira é movida por circunstâncias e ódios transformados em vingança no momento preciso. Renan garante que não vai perseguir Bolsonaro, mas Bolsonaro tem que ficar com um pé atrás.

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