Vacina contra Covid-19: Tomar apenas uma dose prejudica eficácia prometida

Segundo o Ministério da Saúde, 1,5 milhão de pessoas não retornaram aos postos para receber a segunda dose; aplicação deve ser feita no prazo indicado pela farmacêutica

O Brasil ocupa o sexto lugar entre os países que mais vacinam contra a Covid-19, considerando o número total de doses aplicadas, de acordo com levantamento realizado pela Bloomberg. Com uma média de 833 mil injeções por dia, a estimativa é de que o país leve 11 meses para atingir 75% da população vacinada. A meta do Ministério da Saúde, no entanto, é atingir pelo menos um milhão de pessoas imunizadas por dia. Porém, o esforço feito pelas autoridades e profissionais da área da saúde pode ir por água abaixo com a falta de adesão à segunda dose da vacina por parte da população. O total de imunizantes aplicados é de 26.024.553 em primeira dose e 9.479.785 na segunda. No último dia 13 de abril, o Ministério da Saúde fez um apelo e pediu para que cerca de 1,5 milhão de pessoas que tomaram doses da CoronaVac ou da AstraZeneca, únicas disponíveis no Brasil, retornem aos postos para completar a imunização. A CoronaVac, do Instituto Butantan, tem eficácia global de 50,4% e prevê a segunda aplicação entre 15 a 28 dias após a primeira. Já a de Oxford, que é produzida no Brasil pela Fiocruz, tem eficácia entre 62% e 90% e é recomendado esperar até três meses para a segunda dose. De acordo com o Ministério da Saúde, mesmo quem perdeu o prazo da segunda aplicação deve procurar uma unidade de saúde.

“Uma vez imunizado é imunizado. Uma vez que a vacina foi aplicada, ela foi aplicada. Se você perdeu o prazo da segunda dose, você ainda precisa tomá-la. Não é necessário refazer o processo, tomar novamente a primeira dose. O ideal é que você respeite o intervalo entre elas, mas, caso não respeite, tome depois do mesmo jeito. Mas saiba que, de acordo com o tempo que demorar entre elas, a eficácia pode ser prejudicada”, explica o biomédico virologista Raphael Rangel. Até agora, entre as vacinas aprovadas no mundo, apenas a da Janssen, do grupo Johnson & Johnson, que utiliza o adenovírus, prevê a aplicação de uma única dose. Ela está autorizada para uso emergencial no Brasil desde o fim de março, mas as 38 milhões de doses já adquiridas pelo governo federal só devem chegar por aqui entre julho e dezembro. A eficácia global dela é de 85% em casos graves da Covid-19.

“A vacina é como se fosse uma escola. Você precisa de uma frequência correta para aprender as coisas e só assim passa de ano. É a mesma coisa. Você só consegue avançar na etapa de imunização se cumprir os processos: tomar a primeira dose, que estimula o sistema imunológico a produzir anticorpos; tomar a segunda dose, que potencializa isso; e assim você avança para a fase da imunização correta”, explica Rangel. De acordo com o virologista, tomar apenas uma dose não significa que a pessoa está totalmente desprotegida, mas traz uma sensação de falsa segurança. “Você não tem a proteção completa porque o seu sistema imunológico não foi sensibilizado o suficiente para que você esteja protegido. A imunização completa, que é a eficácia global que os fabricantes anunciam, se for uma vacina de duas doses, só é alcançada com as duas aplicações de fato. Tomando uma dose, você fez o caminho pela metade. A primeira dose vem para preparar o sistema imunológico para receber a segunda, o que potencializa a imunidade”, afirma o biomédico.

Ainda segundo Rangel, o que determina se uma vacina vai precisar de uma ou duas doses é o modo como ela sensibiliza o sistema imunológico. “Cada uma faz isso de acordo com a sua tecnologia. A gente precisa entender que a vacina precisa ser pelo menos 50% eficaz na sua eficácia global. Ou seja, ela precisa estimular o sistema imunológico dos pacientes que foram expostos a ela. Tem vacinas que a gente consegue aumentar a eficácia com duas doses. Além disso, é verificado até que ponto ela sensibiliza o sistema imunológico de uma forma eficiente para combater a doença”, finaliza o especialista.

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